Dzain Blog

Eu sou Vitor Almeida, moro em Pelotas/RS, aspirante à “dzainer” e também blogueiro nas horas vagas.___ Esse blog fala de música, tecnologia, design e arte. Com notícias atualizadas todo o dia extraídas do site G1 e do site da MTVBrasil.

“Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais tudo!”

Terça – 14/10/2008

E o Ceará tava mesmo um absurdo. O show foi emocionante, com todo mundo até aonde a minha vista alcançava curtindo loucamente, cantando tudo. Passava um filme na minha cabeça, e na hora em que fizemos uma menção a Creep no meio de Máscara, não deu pra segurar. Aquela música é foda, a TPM tava foda, e aquela letra faz muito sentido. Quando cheguei no “I don’t belong here” e lembrei de todas as coisas as quais eu não pertenço e mesmo assim aturo por amor ao que eu faço, quando pensei em todas as disparidades veio um nó na garganta e lágrimas. De alegria, de desespero, de alívio, de sei lá mais o quê. Quase não consegui terminar a música, a voz tremia. Mas rolou.

E na madruga enfrentamos mais um daqueles vôos até o Rio. Chegamos virados, famintos e cansados, e tivemos uma grata surpresa ao descobrir que o hotel em que ficaríamos hospedados era numa ilha. Pegamos um barco, e o astral melhorou. Engraçado no dia anterior eu ter divagado tanto sobre mar, barcos e essas coisas, e no dia seguinte ser esse o nosso único meio de transporte possível. Ilha da fantasia. Só tínhamos nós no hotel, sem ninguém pra encher o saco, podíamos ficar a vontade. Todo mundo na hippagem, os meninos de caiaque, eu e Joe no ping pong. Tão bom não precisar ficar trancafiada num quarto…

De noite, barco de novo pra ir até Seropédica, lugar do show. Aliás, Seropédica foi até agora a coisa mais surpreendente da semana. Era uma feira agropecuária com atrações sertanejas e de axé, e um dia de rock (oi! tudo bem?). Não imaginávamos que teria tanta gente- umas vinte mil me disseram- com som, palco e estrutura de primeiríssima. Deu gosto tocar se ouvindo bem, fica tudo mais gostoso. Nos divertimos. Voltamos para nossa querida ilha, deitados no convés do barco com vento na cara e Led Zeppelin no celular de Dedé.

Como depois da bonança sempre vem a tempestade, o dia seguinte foi um tormento. Até começou bem, com o role de barco pra sair da ilha. Fomos direto para a lona de Anchieta e o caos estava anunciado. A equipe já nos preparou psicologicamente pra o som tosco que iríamos tocar, até aí beleza. Queremos o melhor som que pudermos ter em respeito ao nosso trabalho e ao público que merece qualidade sempre, mas também não temos frescura. Já tocamos em tudo que é esquema. Voz e baixo na mesma Ciclotron e as porra. O problema é quando tudo está tosco e ainda rola má vontade. Sempre fizemos questão de tocar nas Lonas basicamente pela galera daquelas áreas (que eu tô ligada q as vezes nem vai na Zona Sul ver show – é longe, é caro, e tudo mais). É uma questão de princípio mesmo, e de manter essa conexão com o lado mais roots da coisa. A grana que rola é basicamente só para os custos. Nesse caso, o dinheiro nem me interessa, tenho outras compensações. É vontade de estar junto daquelas pessoas também. Mas chegar lá e não ter o MÍNIMO de qualidade de som e estrutura não dá. Porque no final a gente vai acabar fazendo um show de merda porque não nos escutamos, porque o palco dá choque (tomei vários, e não é gostoso), porque o PA é desligado no meio do show por um desavisado que foi acender uma maldita luz. Sagacidade e agilidade de pensamento de Duda quando isso aconteceu: antes que eu gritasse “estratégia!” e saísse correndo, ele pulou da bateria e virou as caixas de retorno pro público, assim poderíamos malmente chegar ao final do show. Aí chega a ser sacanagem com a galera que pagou pra assistir, então fica assim: a gente ama fazer show nas Lonas, mas agora só quando a estrutura tiver o mínimo de condição. Sei q o ingresso é barato e por isso não dá pra botar um puta equipamento e blábláblá, mas nem era isso que a gente queria. Vamo chegar num acordo aí, né minha gente? O que fez esse show ser salvo foi o público, definitivamente. Ardorosos, quentes, cantando todas as músicas inclusive na hora em que o PA foi desligado. Não sei o que seria da gente sem eles. Apesar de tudo, fizeram valer a pena. Saí do palco ensandecida, e nosso técnico já foi se desculpando pelo PA, “não fui eu não, ó, foi aquele guarda ali”. Vi um cara de farda, e nem pensei. Fui até ele. “Obrigado por ter desligado o som, o senhor ajudou muito!” Virei as costas e saí andando, até porque ainda teríamos uma segunda lona pela frente, logo em seguida. Fomos direto de uma pra outra. Vista Alegre foi melhor, pelo menos o PA funcionou até o final. E a galera de novo salvando a noite. Altas rodas, coral afinado, calor humano, físico, mental. Deu até pra tocar umas musiquinhas a mais. Massa. Devo ter falado umas coisas meio sem noção nesses shows, mas a culpa é do Tim Maia. Acabei de ler sua biografia – sensacional, devorada em dois dias e meio. Juntou a fome com a vontade de comer: eu que vivo a vida tentando controlar o meu lado reclamão e explosivo, com a história do cara que sempre botou a boca no trombone. A sorte do mundo (e talvez a minha) é que meu Tim Maia está dormindo. Faz silêncio que é pra ele não acordar.

by: Pitty

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